
A exemplo da cúmplice, Guilherme de Pádua protagonizou, na cadeia, escândalos e tumultos. A ponto de ter sido transferido da 16a DP, para que se restabelecesse a ordem na delegacia, depois das denúncias de um companheiro de cela, que o acusou de participação na tentativa de fuga empreendida pelos presos e, inclusive, de ameaça-lo de morte.
Esse último episódio aconteceu quando um dos presos teve de ser levado a um hospital público: segundo Guilherme de Pádua, teve um ataque de asma. Segundo Wellington, seu companheiro de cela, foi desacordado por uma gravata aplicada por Guilherme, que ensinava golpes aos outros presos, para que os utilizassem na fuga contra os policiais. O preso foi levado para o hospital e -como se pode ler no noticiário anexo-, verificou-se que o depoimento de Wellington era verdadeiro.
Jornal do Brasil 22/07/93
o companheiro de cela do ator, Wellington Gomes da Silva Júnior, de 19 anos, contou ontem em depoimento à polícia que o assassino confesso da atriz Daniela Perez foi um dos mentores do plano frustrado. Segundo ele, Guilherme também ajudou a serrar a tranca da sua cela.
Denúncia _ No depoimento, o companheiro de cela do ator denunciou que o preso Cláudio Benedito da Silva, levado ao Hospital Lourenço Jorge, na Barra, supostamente com crise asmática na madrugada de domingo retrasado, dia 11, na verdade recebera uma gravata de Guilherme. O assassino ensinava aos presos golpes para usarem contra os policiais na hora da fuga.
Ainda de acordo com Wellington, Guilherme ´´servia de mulher“ para alguns presos e ´´instigava seus companheiros dançando e rebolando de sunguinha“. Ele ´´comprava proteção e silêncio distribuindo medicamentos e roupas“, disse o preso.
O delegado Antônio Nonato, da 16ª DP, colocou Wellington sozinho numa cela após depor. Nonato disse que os outros presos ouvidos negaram o depoimento de Wellington. Policiais acreditam, no entanto, que Wellington tenha contado a verdade e temem por sua vida se for transferido.
´Mulher` _ Wellington disse que o ator ´´servia de mulher´´ para Sérgio Caxias, gerente do ponto de drogas da Vila Operária, em Duque de Caxias; José Amaro, gerente do tráfico da Rocinha; Luís Cláudio e Cláudio Benedito.
O preso contou ainda que os companheiros colocaram ´´remédio moído“ na sua comida para deixá-lo sonolento e poderem agir sem o seu testemunho. ´´Guilherme me ameaçava dizendo que Paulo Ramalho iria acabar comigo“, disse.
Ontem, o advogado do ator, o defensor público Paulo Ramalho, esteve com seu cliente por duas horas.
Jornal do Brasil, 23/07/ 93
Segundo o preso, na madrugada do dia 11, quando num treino de caratê Guilherme deu uma gravata em Cláudio Benedito da Silva, deixando-o inconsciente, o companheiro de cela José Amaro dos Santos se ofereceu, se fosse preciso, para assumir toda a culpa.
O Boletim de Atendimento Médico do preso Cláudio Benedito confirma parcialmente a versão de Wellington. O laudo assinado pela médica Dirce Maria Coelho, do Hospital Lourenço Jorge, para onde Cláudio foi levado, diz que Cláudio chegou em semicoma, desmaiado em decorrência de esforço após exercício físico. No boletim não há referência à versão inicial dos presos, de uma crise de asma.
Namorado _ Wellington lembrou que Sérgio Ferreira da Costa, o Caxias, era o ´´namorado“ de Guilherme: ´´Eu os vi tendo relações sexuais“. Wellington disse ainda que Guilherme dormia sempre junto de Sérgio, José Amaro, Cláudio Benedito e Luiz Cláudio da Silva.
Guilherme de Pádua se adaptou muito bem à cadeia e descobriu afinidades com seus ocupantes mais perigosos. Escute com que entusiasmo ele os descreve: :
Perdendo a medida da dissimulação, tenta vender uma imagem “virginal” no livro que escreveu, falando de si na terceira pessoa. Este trecho surreal foi publicado nos jornais da época:
-Que pica você vai segurar, hem? comentou um deles com “simpatia policial”.
Na linguagem vulgar dos homens e mulheres sem classe, a palavra “pica”significava pênis. Apesar da descompostura do termo, a boca daquele policial parecia ter uma intimidade absurda com essa palavra. Para Guilherme tratava-se de uma linguagem “suja” que, naquele momento, impressionou-o tanto ou mais do que sua própria linguagem impressionava às pessoas idosas que não mantinham contato frequente com a “nova geração.” Conhecia muitos “palavrões” que eram ditos sem maldade. Apesar disso, uma única palavra pronunciada inoportunamente por aquele policial anunciava que, naquele meio, existiam muitas coisas “podres”que eram ingeridas com naturalidade
Guilherme de Pádua nunca demonstrou nenhum incômodo por carregar a pecha de assassino. Só se mostra ofendido quando falavam do que não é motivo de vergonha para ninguém: sua homossexualidade!
Em vários momentos, no livro que escreveu, (falando de si na terceira pessoa) a vaidade, como sempre, fala mais alto, e a pretexto de gabar-se de sua esperteza, Guilherme de Pádua admite às acusações de Wellington sobre a corrupção que promoveu na cadeia. Aqui um trecho da negociação para ficar numa cela especial:
diz o policial: será que você tem condições de colaborar com a gente? (…)
-isso seria em torno de quanto mais ou menos? Guilherme afiou seu instinto de negócios (…) Ô seu Allyson, será que dá pra ser cinco milhões? porque aí eu mesmo dou, nem peço pros meus pais.