
O assassino contou muitas versões. Conduzido à delegacia, negou o crime durante 7 horas, e tentou corromper o delegado, propondo que considerasse o caso não como assassinato, mas como assalto seguido de morte. Confessou, então, que havia levado a bolsa de Daniella para simular assalto. Vale lembrar que a bolsa e os dólares que estavam lá para fechar a compra de um carro nunca foram devolvidos! muito menos a aliança de casamento.
Proposta não aceita, e encurralado pela apresentação de que havia uma testemunha visual –Hugo da Silveira– e de que a perícia havia constatado que adulterara a placa do seu carro para cometer o assassinato, “elaborou” , uma primeira história, baseada no filme que lhe veio à mente: “Atração Fatal”, onde cuidou de acomodar todas as provas que a polícia havia apresentado para prende-lo.Veja o que ele diz no livro que escreveu (a narração é na terceira pessoa). Trecho publicado no noticiário da época:
Enquanto os investigadores elaboravam uma forma de faze-lo falar, ele imaginava o que iria dizer aos investigadores. (…) Naquele curto espaço de tempo que teve para pensar, elaborou uma confissão. Falaria que Daniella tinha um interesse amoroso por ele, mas ele não correspondia. Daniella o perseguia com extremo sentimento que nasceu de uma amizade. Algo como no filme Atração fatal. Ele jamais havia correspondido (…) O sentimento de Daniella tornava-se cada vez maior sob efeito da rejeição (…) Esse era o esquema que ele havia elaborado. No desespero, acreditou que essa história absurda seria realmente convincente.
A montagem da história, segundo o próprio assassino denuncia, contou com a colaboração dos seus advogados, presentes ao depoimento. Está registrado no livro que escreveu, sempre referindo-se a si em em terceira pessoa:
Era hora de pensar, juntamente com seus advogados e criar uma descrição minuciosa de uma situação que pudesse levar à morte de Daniella
E sem nenhum escrúpulo, (nem dele nem dos advogados), não satisfeito em assassinar Daniella, parte também para a tentativa de assassinar também a sua imagem, retratando-a como uma insana, disposta a destrui-lo pessoal e profissionalmente. Vamos ao processo. Aqui está o que ele diz, no depoimento contido no auto de prisão em flagrante:
que há cerca de 04 (quatro) meses atras, DANIELA, aproveitando-se das normais brincadeiras entre atores, passou a assedia-lo de todas as formas possíveis de uma mulher (…) que apesar de notar as insistentes insinuações de DANIELA nunca a encorajou, procurando dissuadi-la de qualquer pretensão.(…) que procurava, apesar das insinuações da jovem, manter uma amizade profissional, pois estariam trabalhando juntos quase diariamente. Que DANIELA nunca se conformou com o fato do declarante não atender as suas insinuações, passando a partir daí, DANIELA, a se insinuar cada vez mais para o declarante, fato este sempre repudiado por ele. Que fora essas insinuações, DANIELA passou a ameaçar a vida pessoal do declarante, afirmando diversas vezes que mandaria matar a esposa do mesmo, determinando que o corpo fosse esquartejado em seis pedaços e enterrados em locais diferentes, para que a alma nunca mais se reencontrasse. (…) Que DANIELA por diversas vezes também alegava que poderia prejudicar a profissão de ator do mesmo, pois sua mãe e seu marido, assim como ela, são pessoas muito influentes no meio artístico
A narrativa de como aconteceu o crime ainda é mais surreal. Diz que Daniella praticamente o obrigou a segui-la para bater papo, até o matagal sombrio, típico local de desova, de meter medo à própria polícia, que armou-se de metralhadora para permanecer ali, quando do encontro do carro. Embora sua mulher grávida estivesse esperando por ele há muitas horas no Barrashopping, Guilherme de Pádua conta que seguiu Daniela “para não ser indelicado”. No local, ela o espancou e tentou beija-lo. Com medo, ele se defendeu desferindo nela 18 punhaladas:
que no local DANIELA veio para o carro do declarante e começou a se insinuar de forma mais agressiva, tendo o declarante repelido, sempre tentando contornar a situação da melhor maneira (…) que DANIELA estava totalmente transtornada, transtorno esse que se agravou com a negativa do depoente, que passou a ficar constrangido, acuado e irritado com tal situação. Que DANIELA começou a chorar compulsivamente, tendo o declarante aberto o porta-luvas do seu carro para pegar um lenço de papel que ali guardava; que neste momento DANIELA viu uma tesoura que ali estava, pegando-a imediatamente, partindo agressivamente em direção ao declarante, dizendo que ia acabar com a vida do mesmo; que neste momento o declarante, acuado, saiu do seu carro tentando se desvencilhar de DANIELA; que o declarante, diante dessa situação, tentou imobilizar DANIELA, que estava totalmente descontrolada, tendo travado com ele luta corporal; que a violencia com que DANIELA batia no declarante era tanta que mesmo ele estando com casaco tipo couro, napa, teve seus braços e sua testa lesionados; que apos conseguir tirar a tesoura de DANIELA, o declarante que estava desesperado, com medo de tudo o que estava acontecendo, digo, que o declarante conseguiu tirar a tesoura de DANIELA depois de imobiliza-la com uma gravata; que apesar disso tudo, DANIELA sempre gritava, além de diversos palavrões, que iria acabar com a mulher dele e com seu filho. e que o declarante, digo, tendo neste momento DANIELA neste momento novamente agredido o declarante, e este como se estivesse vivendo um pesadelo se atracou com DANIELA, não podendo descrever a forma precisa como a atingiu.
Uma observação: Daniella tinha 1.62 de altura, e como registra o laudo cadavérico: “apresenta compleição física franzina”
Algumas horas depois desse depoimento, num show de cinismo e dissimulação, Guilherme de Padua divulga a versão que “elaborada” através de uma entrevista a Nélio Bilatti, da rádio Tupy. Cuidando para não se comprometer com muitos detalhes. Afinal, a investigação estava só começando:
Os colegas de trabalho reagiram com surpresa e indignação:
A “versão” , registrada diante de 4 advogados, tinha um intuito muito claro: fugir das evidências da frieza e da premeditação que agravavam o crime e aumentavam a pena. Seria preciso levar o crime para o terreno do passional, de modo a se beneficiar das atenuantes. Assim, os primeiros advogados de Guilherme de Pádua anunciaram a historia que defenderiam no júri.
No livro que escreveu, Guilherme de Padua confessa que esses advogados participaram das “negociações” com o delegado sobre como registrar a história em depoimento. Diz mais: que a participação de Paula Thomaz foi discutida ali, abertamente, entre eles. Ainda assim, na disposição de safar o cliente, se prestaram ao papel de denegrir publicamente a pessoa de Daniella, emprestando suas imagens respeitáveis para dar credibilidade às novas punhaladas que o assassino desferia contra ela.
É isso que chamam de ética da profissão? é isso que chamam de direito de defesa? não, eu não entendo nem aceito. A atuação de um advogado, a partir de certo limite, deixa de ser defesa para se tornar cumplicidade. Foi com certeza a partir da observação de histórias como essa, que Dostoievsky definiu duramente o advogado como “consciencia de aluguel”!
Quanto às concessões que ele conta terem sido feitas pelo delegado Mauro Magalhães, são tão vergonhosas que merecem até uma postagem à parte!
Isso foi só o começo, a primeira das muitas outras versões que vieram a seguir. Leia sobre as outras nas postagens seguintes, quando se verá que já nesse momento o criminoso preparava o terreno para se safar, deixando Paula Thomaz enfrentar sozinha as consequências. Não deu certo. Paula tinha a mente tão criminosa quanto a dele, deixou que armasse o circo, e deu-lhe a volta.