
No mesmo dia em que a entrevista de Paula Thomaz vai ao ar, Guilherme de Pádua convoca uma coletiva, onde afirma, recusando-se a entrar em detalhes, que ela estava sim, no local do crime. A pergunta que não podia calar era: porque Paula Thomaz mataria Daniella se mal se conheciam? ciúmes? Ciumes de que? havia algum envolvimento entre seu marido e Daniella? Guilherme de Pádua se esquiva, e no momento em que a pergunta lhe é feita diretamente, ele gagueja e Ramalho o interrompe, finalizando a entrevista.
Ele sabe que para responsabilizar Paula era preciso dar a ela uma motivação, e entre pessoas que mal se conheciam, essa motivação só podia ser uma -ciúmes. Mas as cenas da novela eram insuficientes para sustentar isso: eram cenas de humor. O par romântico da personagem de Dany era a personagem de Fabio Assumção. O namorico com Bira, personagem de Guilherme de Pádua foi uma passagem breve, utilizada para movimentar a trama. Durante o pouco tempo que durou, aconteceu um único beijo entre os dois. E na vida real, como falar de um caso, ou de um namoro entre dois atores da novela das oito sem uma única pessoa que tivesse visto, ouvido, desconfiado ou que soubesse disso? Guilherme de Padua não tinha nenhum colega de trabalho, nenhum amigo pessoal, nenhum garçom de bar, de motel, nenhum porteiro, ninguém por testemunha! Então ele não se compromete: deixa no ar.
Assim começa a nascer a nova versão: ele teria levado Paula, escondida no banco de trás do carro para um encontro com Daniella, a fim de provar a ela que não existia nada entre os dois. Que Daniella o assediava e, diante de sua recusa em ceder, teria interferido junto à mim e à direção da Globo para a redução de seu papel.
Paula veria que ele era sincero, que não tinha nenhum segredo para ela e passaria ainda a dar mais valor ao marido (trecho do livro publicado na imprensa)
No mesmo audio, em que se apresenta como o marido extremoso e tão preocupado com a gravidez da esposa, propensa a abortos, a ponto de colar seu corpo no dela quando tinha de subir alguma rampa, ele conta como dois três dias antes do crime, tinha se empenhado em acirrar os ciúmes dela
Seria tão simples marcar um jantar, um encontro entre casais, para que Paula visse que eram simplesmente colegas de trabalho. Mas esse não era o projeto. Assim -e isso está registrado em audio- ele induz Paula a acreditar que teria que ceder ao assédio de Daniella ou ela acabaria com sua carreira de ator. Esse é o ponto. Ciumenta, possessiva, invejosaa do brilho de Daniella ela sempre foi. Mas o que a fez segurar o punhal foi essa perspectiva.
Assim, esse criminoso sem nenhum talento imaginativo, elaborou a narrativa que vimos na confissão: estava fugindo do assédio de Daniella, mas tinha que falar com ela aquela noite, por conta da redução de sua personagem e o encontro foi marcado -num local de desova. Que tal?
Rompido com Paula, que se negou a assumir a culpa sozinha, ele anuncia, então, que vai escrever um livro, e já na introdução, avisa: se trata de um romance autobiográfico, e não de um livro denúncia. Apesar de ter conseguido proibir a divulgação desse livro na justiça, nosso advogado, Arthur Lavigne, o distribuiu aos jurados bem antes do dia marcado para o julgamento, para que não se alegasse nenhum cerceamento de defesa.
O livro de Guilherme de Pádua chega a ser risível: mal escrito, recheado de histórias estapafúrdias, de ressentimento contra os colegas mais talentosos e bem sucedidos que ele, e de arrancos megalomaníacos. Retrata a si próprio como o ator talentoso, injustiçado e perseguido pela inveja dos outros. Em toda parte parece haver perigo e ameaça para que ele não chegue ao sucesso. Atribui a Daniella, uma iniciante, o poder então exercido pelo Boni: afirma que ela mandava e desmandava na Globo, admitia e demitia funcionários, reafirmando sua convicção de que ela poderia, sim, não apenas tira-lo daquela novela, mas destruir mesmo a sua carreira de ator.
Quando se trata de retratar o “clima” sugerido entre ele e Daniella, perde a noção de limites e copia, literalmente, uma cena da novela De Corpo e Alma, incluindo parte do diálogo!
As fitas originais das entrevistas que me foram fornecidadas pelos reporteres que o entrevistaram nessa época, mostram muito claramente como essa “versão” foi sendo construída. Os detalhes vão mudando a cada fita, se aprimorando.
Nesse livro, que a imprensa recebeu e publicou vários textos, ele nem tenta explicar porque aceitou ir a um matagal a 6 kilometros da Tycon, situado numa direção que não era a do Barrashopping nem a da zona sul, com uma mulher insana que, segundo ele, o perseguia e ameaçava, só para bater papo! Olhem o tom da conversa que precisava ser mantida em lugar tão sinistro:
-Tô cansada, tô louca pra essa novela acabar
-Ah, Daniella, não fala assim, não. A novela é tão legal!
-Eu sei, mas é que não tô com cabeça
Na sequencia, acusa Paula de ter matado sozinha, quando ele não estava vendo. E descreve o clima de romance e cumplicidade em que os dois sairam do local do crime, para lavar o carro do sangue de Daniella, combinar uma história para contar pra polícia, se chamados para testemunhar, e ir dar pêsames a nossa familia na delegacia. Ele relata isso no livro que escreveu:
calma amor, eles não vão descobrir que foi a gente não
Estavam tranquilos, claro: haviam eliminado a ameaça. Naquelas mentes doentias, a carreira de Guilherme de Pádua estava salva!
Não foi à toa que ele se recusou a fazer a reconstituição desses fatos, reinvindicando seu direito de não produzir prova contra si próprio! isso diz tudo!
O assassinato de Daniella alçou Guilherme de Pádua ao patamar de protagonista. Não foi bem da maneira como ele esperava. Mas para a mente perversa de um psicopata, o que importa mesmo é que os refletores estejam acesos e voltados pra ele!