
Não fosse Hugo da Silveira, é bem possível que nunca tivéssemos chegado aos assassinos de Daniella: a capacidade de dissimulação dos criminosos, a determinação deles em escapar da punição, a ausencia de remorso e culpa, características de suas personalidades de psicopatas, com certeza teriam permitido que continuassem a conviver conosco, “irmanados à nossa dor”, como simularam fazer quando foram nos abraçar e prestar solidariedade na madrugada do crime.
Hugo da Silveira, advogado aposentado, morava em Porto Seguro (BA). Estava no Rio para passar o natal em casa da filha, moradora do condomínio mais próximo do matagal onde os assassinos atiraram o corpo de Daniella. Naquela noite , a caminho do condomínio, passou pelo local, por volta das 21.30 hs. Foi a mão de Deus, como disse Arthur Lavigne, até porque, ele poderia ter chegado ao condomínio por outro caminho . Havia um atalho que era muito mais utilizado pelos moradores. Lavigne descreve:
avistou dois carros estacionados, um santana e um escort, um atrás do outro, sendo que tal fato lhe chamou a atenção por estarem seus ocupantes naquele local ermo; que o depoente ficou preocupado e, chegando em casa, tentou obter uma arma com sua filha, mas não possuindo uma, retornou com o caseiro que passou a dirigir o veículo tendo o depoente a seu lado.
Hugo voltou disposto a anotar a placa dos carros, e na noite mesmo do crime, entregou à polícia essa anotação que permitiu o rápido esclarecimento do crimeDiz Diz ele em seu depoimento :
que os veículos ainda se encontravam na mesma posição, voltados para a avenida das Américas, e neste momento anotou a primeira placa do primeiro veículo santana, pela parte traseira, cujas letras se recorda serem OM; que o depoente foi mais adiante e retornou por uma rua, digo, pelo mesmo caminho objetivando verificar agora a placa do escort, tendo esse retorno demorado no máximo um minuto;
A passagem de Hugo faz com que os assassinos se apressem em correr dali, desistindo do esforço de arrancar a placa do carro de Daniella, que certamente planejavam abandonar em outro local.
Continua o depoimento de Hugo:
que o depoente conseguiu anotar a placa do escort, veiculo que estava sem passageiros mas observou que no santana haviam duas pessoas, uma mulher no banco do carona e o vulto do motorista que parecia ser um homem; que o veículo do depoente estava com os farois acesos e os farois do santana também foram acesos um pouco antes de o depoente passar com o motorista em seu veículo; que a luz dos farois do santana refletiram no carro da frente, na traseira do escort, e clareou o interior do veiculo santana; que a rua é muito estreita, e o veículo do depoente passou uns cinquenta a oitenta centímetros de distancia do santana; quue nesse momento observou o vulto do motorista e de uma mulher sentada no banco do carona; que o depoente viu bem o rosto da mulher, mas o do homem não deu para perceber
De volta ao condominio, com as placas anotadas, moradores do condominio receosos reunidos na portaria, um deles, Antonio Carlos Curado, liga para a policia. Aqui, um trecho do depoimento de um dos PMs que atenderam ao chamado, explicando em depoimento na ALERJ, o porque da polícia ter sido acionada:
Ali, naquele dia 28, Antonio Carlos Curado veio falar comigo. Contou que um morador tinha anotado a placa dos veiculos estacionados ali. Chamei o delegado Cidade, que foi até o condomínio, acordou Hugo -já era de madrugada, e ele estava de viagem marcada para a manhã seguinte. Hugo prestou o primeiro depoimento na sala da sua casa, fornecendo aos policiais a placa de carro que identificaria os assassinos. Ele anotou a placa adulterada: OM115.
Da casa de Hugo os policias foram até a Tycon. E lá, pelo registro de entrada e saída dos carros, identificaram o santana de Guilherme de Pádua: LM115. Logo o OM ficou explicado, quando a pericia detectou que Guilherme de Padua tinha adulterado a placa para cometer o crime, transformando o L em O.
Hugo da Silveira voltou para Porto Seguro. No retorno, parando em um hotel para descansar, viu o noticiário sobre o crime:
que o depoente viu no Jornal Nacional cenas da novela e pode observar que aquela pessoa, ou seja, aquela mulher que estava sentada no banco do carona não era a atriz Daniella Perez. Que cinco ou seis dias depois, o jornal O Globo, de sábado ou domingo, publicou uma foto de Paula Thomaz; que o depoente verificou, com certeza, que era a mulher que ali estava no interior do santana (…) que o depoente então comunicou-se com a filha e foi marcada sua presença para a oitiva na delegacia da circunscrição da Barra da Tijuca.
Depoimento de Hugo da Silveira no Tribunal do Juri, contando a passagem pelos carros:
Tribunal do Juri: Hugo da Silveira conta como identificou Paula Thomaz:
Hugo da Silveira prestou depoimento na polícia, na justiça e no dia do julgamento de Paula Thomaz. Veio muitas vezes de Porto Seguro, por conta própria, fazer o que sua consciencia mandava que fizesse. Num país onde as pessoas comumente fogem de testemunhar um crime, seja por medo de represálias, seja pela maneira desrespeitosa como se permite que sejam tratadas, Hugo é um exemplo de cidadania e solidariedade humana.
Obrigada, Hugo: lhe devo tudo!